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Com obras de infraestrutura já iniciadas, companhia busca novo investidor para viabilizar fábrica de US$ 2,8 bilhões e prevê início da produção em 2030
Mesmo em ritmo mais lento do que o previsto inicialmente, a Paracel segue avançando com seu projeto de US$ 2,8 bilhões (R$ 14,1 bilhões) para a construção de uma fábrica de celulose no norte do Paraguai. Formada pelo grupo paraguaio Zapag em parceria com a sueca Girindus Investments e a austríaca Heinzel Holding, a empresa trabalha para concluir a estrutura financeira do empreendimento e estima alcançar esse objetivo em 2027.
Sete anos após sua fundação e ao completar o primeiro ciclo de plantio de eucalipto, a companhia ainda busca um investidor estratégico ou financeiro para complementar os recursos necessários ao projeto. A expectativa é que a melhora do cenário macroeconômico e o avanço das obras de infraestrutura contribuam para atrair novos parceiros.
No mês passado, a Paracel iniciou a implantação dos ativos essenciais para o polo industrial de base florestal onde será instalada a fábrica, no departamento de Concepción. A etapa, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com aporte de US$ 165 milhões, inclui a construção de terminal fluvial, linhas de transmissão de energia e infraestrutura viária, com prazo estimado de 24 meses.
Desde o final de 2025, a empresa passou a comercializar o excedente de madeira produzido em suas florestas e também iniciou a prospecção de parceiros para o polo industrial. Entre os interessados está a brasileira Sudati, fabricante de painéis e compensados de madeira, que planeja investir US$ 230 milhões em operações no Paraguai.
“Vemos um cenário favorável para fechar o financiamento em 2027, o que levaria a início de produção em 2030. É a estimativa”, disse o CEO da Paracel, Flavio Deganutti. A companhia conta com assessoria da Jefferies na busca por um novo investidor.
Com disponibilidade de matéria-prima suficiente para abastecer uma linha de produção com capacidade de 1,8 milhão de toneladas anuais de celulose, a Paracel procura um sócio desde o início de 2025. Embora grupos brasileiros e asiáticos tenham analisado a oportunidade, as negociações não avançaram.
Além do desafio de captar recursos, a empresa poderá enfrentar a concorrência de um possível novo projeto de celulose no Paraguai. Segundo fontes do setor e do mercado financeiro, a Silvipar estaria avaliando a construção de uma fábrica para utilizar a madeira produzida em suas plantações de eucalipto no sul do país.
Originalmente voltada ao desenvolvimento florestal e aos mercados de madeira e créditos de carbono, a Silvipar teria iniciado estudos para agregar uma operação industrial ao negócio. Até o momento, porém, não houve anúncio oficial sobre o projeto.
Para Deganutti, a relação entre as empresas é mais complementar do que competitiva. “Temos uma boa relação de colaboração técnica (com a Silvipar), incluindo a possibilidade de fornecimento de madeira para os primeiros anos de operação da nossa fábrica. Eles estão em um momento diferente do nosso ciclo de desenvolvimento.”
O executivo acrescentou que a expansão das florestas plantadas no Paraguai favorece a criação de sinergias entre empresas do setor. “Vejo isso muito mais como complementaridade do que como concorrência”, afirmou.
A Paracel defende que possui vantagens competitivas importantes para viabilizar o empreendimento. Segundo o CEO, a empresa reúne a maior base florestal do Paraguai, além de contar com benefícios logísticos e fiscais relevantes. “Avançamos bastante: zona franca com concessão de 30 anos, engenharia da fábrica em estágio avançado, contratos com fornecedores definidos e obras de infraestrutura iniciadas”, disse.
Apesar disso, fontes do mercado apontam que o principal desafio do projeto está relacionado aos custos, fator que teria dificultado a entrada de investidores e instituições financeiras até o momento. A companhia, entretanto, mantém confiança na viabilidade do negócio e projeta futuras expansões que podem elevar a capacidade produtiva para até 5 milhões de toneladas anuais.
Conforme Deganutti, a celulose produzida pela empresa poderá chegar aos portos com custo cerca de 30% inferior ao de produtores instalados em Mato Grosso do Sul, atualmente entre os mais competitivos do mundo. “Estamos no primeiro quartil”, disse.
Entre os fatores que sustentam essa competitividade estão custos mais baixos de mão de obra, energia elétrica e incentivos fiscais. “A Paracel é uma zona franca. Durante 30 anos, o único imposto é de 0,5% sobre receitas”, explicou. “O custo de capital é mais baixo que no Brasil e o custo do metro cúbico de madeira também.”
A empresa está próxima de atingir 100 mil hectares de eucalipto plantados com certificação FSC® e possui mais de 200 mil hectares de terras. Segundo o executivo, os ativos da companhia somam atualmente US$ 1,5 bilhão.
A logística do projeto prevê o transporte da celulose por barcaças ao longo do Rio Paraguai até um porto em Soriano, no Uruguai, de onde a produção seguirá para os mercados internacionais. O percurso hidroviário tem cerca de 1,9 mil quilômetros e cada comboio poderá transportar até 30 mil toneladas de celulose.
Na avaliação da Paracel, ainda existe espaço para novas fábricas de celulose na América do Sul a partir da próxima década. Após a entrada em operação da unidade da Arauco, em Inocência (MS), prevista para 2027, e do projeto da CMPC, estimado para 2029, a empresa acredita haver uma janela favorável para iniciar a construção da fábrica em 2027.
“Entre financiamento e condições de mercado, vemos uma janela (para iniciar as obras da fábrica) em 2027”, reiterou Deganutti.