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Portal Celulose - 13/07/2026

O valor do carbono: a celulose de baixa emissão terá maior valor de mercado?

Por Jino John, especialista em inteligência de mercado com mais de 13 anos de experiência no setor global de celulose e papel

O valor do carbono: a celulose de baixa emissão terá maior valor de mercado?

Durante décadas, o mercado global de celulose foi guiado por fundamentos já conhecidos: qualidade da fibra, custos de produção, logística, taxas de câmbio e a dinâmica entre oferta e demanda. Os compradores negociavam de forma agressiva, os produtores concentravam esforços na eficiência e o preço era o principal fator de decisão.

Essa equação está mudando. Um elemento que, há dez anos, praticamente não fazia parte das negociações comerciais, a intensidade de carbono, passou a influenciar as decisões de compra em toda a indústria. À medida que os compromissos de sustentabilidade deixam de ser apenas discurso corporativo para se tornarem metas mensuráveis, as empresas analisam com mais rigor a pegada ambiental de cada matéria-prima que entra em suas cadeias de suprimentos. No setor de celulose, isso levanta uma questão importante: os clientes estarão dispostos a pagar mais por uma celulose de baixa emissão ou até mesmo carbono negativa?


POR QUE AS COMPRAS ESTÃO MUDANDO
Em diversos setores, os compromissos climáticos deixaram de ocupar apenas os relatórios de sustentabilidade e passaram a integrar as estratégias de compras. Empresas de bens de consumo, varejistas e fabricantes de embalagens assumiram metas públicas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Para muitas delas, o maior desafio não está em descarbonizar suas próprias fábricas, mas em reduzir as emissões incorporadas aos produtos e matérias-primas que adquirem.

Essas emissões indiretas, conhecidas como Escopo 3 (Scope 3), normalmente representam a maior parcela da pegada de carbono de uma empresa. Como consequência, as equipes de compras passaram a trabalhar de forma mais integrada com as áreas de sustentabilidade, tornando o desempenho ambiental um critério de avaliação de fornecedores, ao lado de custo, qualidade e confiabilidade.

Para os produtores de celulose, essa mudança é significativa. Historicamente, uma tonelada de celulose de mercado era considerada praticamente equivalente a outra, desde que atendesse às especificações técnicas. Agora, duas toneladas quimicamente idênticas podem ter valores comerciais diferentes caso uma delas apresente uma pegada de carbono comprovadamente menor.

Outros setores já demonstram essa tendência na prática. A eletricidade proveniente de fontes renováveis é comercializada com valor agregado por contribuir para o cumprimento de metas climáticas. O alumínio de baixa emissão passou a ser oferecido como uma categoria distinta do metal produzido por processos convencionais. Fabricantes de automóveis também começam a priorizar fornecedores capazes de comprovar menores emissões incorporadas em materiais como aço e baterias. Não há motivos para acreditar que a celulose seguirá um caminho diferente.


A VANTAGEM ESTRUTURAL DO BRASIL
Os produtores brasileiros ocupam uma posição privilegiada nessa transformação por características estruturais da própria indústria, e não apenas por iniciativas pontuais de sustentabilidade.

As modernas fábricas brasileiras de celulose geram grande parte da energia que consomem a partir de biomassa renovável produzida em suas próprias operações, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis comum em diversos setores industriais. Além disso, as plantações de eucalipto apresentam rápido crescimento e sequestram continuamente dióxido de carbono durante o ciclo entre uma colheita e outra.

Esses dois fatores, a autossuficiência energética baseada em biomassa e o manejo florestal de ciclo curto, proporcionam à celulose brasileira uma pegada de carbono significativamente mais favorável do que a de muitos concorrentes internacionais. Trata-se de uma vantagem estrutural, decorrente das características físicas da operação, e não apenas de uma estratégia de marketing, o que dificulta sua rápida replicação por outros produtores.

No entanto, oferecer um produto de baixa emissão não significa, automaticamente, obter um preço superior. Os compradores exigirão comprovações.


O DESAFIO DA VERIFICAÇÃO
As declarações ambientais que antes se apoiavam em relatórios de sustentabilidade e compromissos institucionais agora precisam ser respaldadas por dados mensuráveis, verificação independente e metodologias de contabilização reconhecidas internacionalmente. A transparência sobre as emissões está se tornando tão importante quanto o próprio desempenho ambiental.

Isso cria oportunidades e riscos. Produtores capazes de medir e comprovar suas emissões poderão conquistar uma vantagem competitiva relevante. Já aqueles que não conseguirem demonstrar esse desempenho poderão ser excluídos, de forma silenciosa, de processos de compras nos quais a performance ambiental passou a ser um critério de seleção. Isso pode ocorrer não necessariamente porque seu produto seja inferior, mas porque não conseguem provar que ele é superior.


ONDE O VALOR REALMENTE APARECE
Outra questão é saber se uma celulose de baixa emissão efetivamente resultará em um prêmio de preço.

Num primeiro momento, o ganho tende a se manifestar mais como uma preferência comercial do que como um aumento explícito no valor por tonelada. Isso pode significar contratos de fornecimento mais longos, status de fornecedor preferencial, maior fidelização de clientes ou acesso a segmentos premium, nos quais a sustentabilidade possui importância estratégica para os compradores. Em outras palavras, o prêmio do carbono pode surgir inicialmente na preferência do mercado, e não no preço.

Com o tempo, esse cenário pode evoluir. À medida que os mecanismos de precificação de carbono se expandem e as exigências de reporte de emissões se tornam mais rigorosas em grandes economias, como demonstra o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia, o custo de adquirir matérias-primas com alta intensidade de carbono tende a aumentar. Nesse contexto, a celulose de baixa emissão poderá oferecer vantagens econômicas concretas, além dos benefícios ambientais.

Os mercados financeiros representam outro vetor dessa mudança. Instituições financeiras vêm incorporando cada vez mais os riscos climáticos às decisões de crédito e investimento. Empresas capazes de demonstrar operações resilientes e de baixa emissão poderão obter melhores condições de financiamento e menor custo de capital, fortalecendo sua competitividade independentemente do preço pago pelos clientes.


OS LIMITES DESSA VISÃO
Nada disso significa que o carbono substituirá os fundamentos tradicionais do mercado. Historicamente, a eficiência sempre foi recompensada, e o desempenho climático deve ser visto como mais uma dimensão da excelência operacional, e não como um substituto da qualidade, da competitividade em preços, da eficiência logística e do bom atendimento ao cliente. Um produtor com excelente desempenho ambiental, mas incapaz de entregar seus produtos de forma consistente, continuará perdendo contratos.

Também existe um risco de excesso de foco nas métricas de carbono. Uma indústria que concentre seus esforços apenas na redução das emissões, deixando em segundo plano aspectos como biodiversidade, gestão da água, manejo florestal responsável e relacionamento com as comunidades, dificilmente atenderá às expectativas dos compradores mais sofisticados. O mercado busca um desempenho ambiental abrangente. Um único indicador de carbono, isoladamente, dificilmente será suficiente.


A VERDADEIRA QUESTÃO PARA O FUTURO
Talvez a pergunta mais relevante não seja se a celulose de baixa emissão receberá um prêmio de preço, mas sim se a celulose de alta emissão passará a sofrer um desconto.

Os mercados costumam recompensar a inovação de forma gradual e, posteriormente, penalizar aqueles que não acompanham essa evolução. O que começa como um diferencial competitivo tende a se tornar um requisito básico. A indústria de celulose parece estar se aproximando desse ponto de inflexão.

Para os produtores dispostos a investir em descarbonização, transparência nos relatórios e verificação independente confiável, o carbono está deixando de ser apenas uma responsabilidade ambiental para se tornar um ativo estratégico de negócios. Esse prêmio talvez nunca apareça como um item específico na nota fiscal. Porém, à medida que clientes, investidores e reguladores atribuem cada vez mais valor ao desempenho climático, o mercado redefine, de forma silenciosa, o que caracteriza um produto premium.

Nos próximos anos, a tonelada de celulose mais valiosa talvez não seja a produzida ao menor custo, mas aquela fabricada com a menor pegada de carbono.

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