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Estoques mais equilibrados, retomada das compras na China, reajustes de preços e uma oferta global mais disciplinada fortalecem o mercado de fibra curta e abrem espaço para uma nova etapa do ciclo
O mercado global de celulose começa a mostrar uma mudança de ritmo, depois de um primeiro semestre marcado por ajustes de preços, estoques elevados em algumas regiões e decisões importantes do lado da oferta. Nas últimas semanas, a combinação entre recomposição das compras na China, redução dos estoques e menor disponibilidade de determinados tipos de fibra trouxe novo suporte às negociações. O movimento ainda está em construção, mas já alterou a percepção dos participantes e recolocou no radar uma questão importante para a indústria: quanto espaço existe para a recuperação dos preços ao longo dos próximos meses?
A resposta passa, antes de tudo, pelo comportamento do mercado chinês. Em setembro, os preços spot da celulose importada de fibra curta avançaram 1% na comparação semanal, enquanto os estoques nas principais regiões e portos do país recuaram 3%, segundo dados da SCI99 compilados pela XP Investimentos. O recuo dos estoques, combinado à retomada das compras, indica que parte dos volumes acumulados anteriormente está sendo absorvida e ajuda a explicar a melhora do ambiente comercial observada no terceiro trimestre.
O MERCADO CHINÊS VOLTA A DAR SINAIS DE FORÇAUm dos sinais mais acompanhados pelos produtores foi a recuperação da atividade de compra na China. Com a BHKP próxima de US$ 560 por tonelada, segundo a XP, os compradores passaram a recompor estoques, enquanto os fornecedores encontraram espaço para defender preços. Para outubro, os contratos futuros chegaram a aproximadamente US$ 585/t, mostrando que o mercado passou a trabalhar com referências superiores às observadas durante a fase mais pressionada do ano. A movimentação não significa que a demanda tenha entrado em um novo ciclo de forte expansão, mas demonstra uma melhora importante no equilíbrio entre disponibilidade e necessidade de reposição.
Também merece atenção o comportamento dos estoques físicos. Em 7 de setembro, os volumes armazenados nos portos de Qingdao e Changshu somavam 2,447 milhões de toneladas, queda semanal de 11 mil toneladas, ou 0,45%, segundo a Fastmarkets. Embora a variação isolada seja modesta, ela ganha relevância quando colocada ao lado da retomada das compras e de outras reduções observadas ao longo da cadeia. É justamente essa combinação que começa a criar um ambiente mais favorável para os produtores: compradores voltando ao mercado enquanto a disponibilidade imediata se torna menos abundante.
PRODUTORES VOLTAM A TESTAR NOVOS NÍVEIS DE PREÇOA mudança de percepção também aparece nas decisões comerciais dos grandes produtores. Em agosto, a Suzano anunciou aumento de US$ 20/t para a celulose de fibra curta destinada à China e a outros mercados asiáticos a partir de setembro, no primeiro reajuste para a região desde abril. O movimento ocorreu em um momento de melhora dos pedidos e de estoques mais equilibrados. A Reuters informou que analistas do UBS BB interpretaram o reajuste como um sinal de que o mercado chinês poderia ter encontrado um piso próximo de US$ 550/t para a celulose branqueada de eucalipto.
O movimento ganhou continuidade em setembro, quando a Suzano anunciou novo aumento de US$ 20/t para a China, com vigência a partir de outubro, além de reajustes para outros mercados. A repetição dos aumentos em dois meses consecutivos é um indicador relevante porque demonstra que os produtores passaram a enxergar condições comerciais para testar níveis mais elevados de preço. Mais importante do que o valor nominal do reajuste, porém, é o fato de os compradores estarem absorvendo parte desse movimento, algo que depende diretamente do nível dos estoques e da disponibilidade de fibra no mercado.
ESTOQUES MENORES MUDAM O EQUILÍBRIO DO MERCADOA melhora não está concentrada apenas na Ásia. Dados da Europulp compilados pela XP mostram que os estoques de celulose nos portos europeus recuaram 10% em julho na comparação mensal e 21% em relação ao mesmo mês de 2025, chegando a 1,202 milhão de toneladas. O movimento amplia a leitura de normalização dos estoques internacionais e mostra que a absorção dos volumes acumulados vem acontecendo em diferentes regiões. Para o mercado, estoques mais equilibrados significam maior sensibilidade a interrupções de produção e menor necessidade de concessões por parte dos produtores nas negociações.
Outro componente dessa equação veio do lado da produção. Ao longo de 2026, paradas de manutenção, conversões e interrupções temporárias reduziram a disponibilidade de celulose em diferentes regiões. Segundo o Rabobank, mais de 2,2 milhões de toneladas de fibra curta deixaram de estar disponíveis no mercado durante o ano em razão desses movimentos. Parte dessas reduções é temporária, mas o efeito sobre o balanço de curto prazo é direto: menos produto disponível enquanto a demanda se recupera tende a favorecer uma recomposição dos preços.
A COMPETITIVIDADE DO EUCALIPTO GANHA IMPORTÂNCIAEm um mercado mais equilibrado, a diferença de custos entre produtores passa a ter peso ainda maior. Na China, a XP estima que produtores integrados que utilizam madeira importada apresentavam custo marginal próximo de US$ 585/t em agosto, enquanto aqueles que utilizam madeira doméstica operavam em torno de US$ 515/t. Essa diferença ajuda a estabelecer referências para a celulose importada e reforça a importância de produtores capazes de entregar fibra competitiva mesmo em diferentes momentos do ciclo.
É nesse cenário que o eucalipto produzido em regiões de alta produtividade florestal mantém uma posição relevante. O Brasil reúne escala, disponibilidade de madeira e produtividade que permitem aos produtores operar com custos competitivos, uma característica particularmente importante quando os preços internacionais passam por ciclos de alta e baixa. Os resultados da Suzano no segundo trimestre ajudam a dimensionar essa estrutura: a companhia comercializou 2,897 milhões de toneladas de celulose e registrou custo caixa de produção, excluindo paradas, de R$ 843/t. O preço líquido médio da celulose exportada alcançou US$ 601/t no período, alta de 8% em relação ao segundo trimestre de 2025.
DEMANDA CONTINUA SENDO O GRANDE TERMÔMETROA recuperação dos preços, naturalmente, precisa encontrar respaldo na demanda. Na China, o cenário do papel ainda apresenta diferentes velocidades entre os segmentos, mas alguns sinais começaram a melhorar. A Fastmarkets registrou em setembro a estabilização dos preços de jumbo rolls de tissue depois de quatro meses consecutivos de queda, movimento associado à melhora sazonal da demanda e ao aumento dos custos da celulose. A estabilização é importante para o mercado de fibra porque mostra uma interrupção na deterioração dos preços do produto acabado e pode facilitar a transmissão dos custos da matéria-prima ao longo da cadeia.
No horizonte mais amplo, a demanda também encontra suporte em segmentos que continuam apresentando perspectivas de crescimento. O Rabobank destaca tissue e fluff entre os mercados com melhor potencial para sustentar o consumo global de celulose, impulsionados pelo avanço de produtos de higiene e pelo aumento do consumo em mercados emergentes. Essa diversificação é relevante para o setor porque reduz a dependência de uma única aplicação e amplia as oportunidades de absorção da fibra ao longo dos próximos anos.
NOVA CAPACIDADE ENTRA NO RADAREnquanto os estoques se ajustam e os preços encontram maior sustentação, a indústria também se prepara para uma nova rodada de expansão. A XP estima aproximadamente 6,8 milhões de toneladas anuais de capacidade adicional de celulose integrada na China entre o quarto trimestre de 2026 e 2027. Entre os projetos de mercado que deverão alterar a oferta global estão a segunda linha de OKI, da APP, e o projeto Sucuriú, da Arauco. A entrada desses volumes será acompanhada de perto pelo mercado, mas seu impacto dependerá do ritmo de crescimento da demanda e da evolução dos demais produtores.
Para os produtores, a chegada de nova capacidade também reforça a importância da eficiência. Em um mercado global cada vez mais competitivo, custo, qualidade da fibra, confiabilidade de fornecimento e logística passam a pesar ainda mais nas decisões dos compradores. A expansão da oferta não elimina a vantagem dos produtores de menor custo; ao contrário, tende a aumentar a diferença entre operações mais eficientes e aquelas com estruturas de custo mais elevadas.
O QUE ESPERAR DO QUARTO TRIMESTREOs próximos meses serão importantes para medir a consistência da recuperação. A XP avalia que o movimento positivo observado em setembro pode avançar para outubro, apoiado pela sazonalidade tradicionalmente mais favorável e pela disponibilidade limitada de nova oferta no terceiro trimestre. A evolução dos estoques chineses, o ritmo das compras e a capacidade dos produtores de sustentar os reajustes serão alguns dos principais indicadores a acompanhar.
Mais do que a cotação de uma semana específica, será o comportamento conjunto desses indicadores que definirá a próxima etapa do ciclo. Se os estoques continuarem em trajetória de normalização, os compradores mantiverem a recomposição e a oferta permanecer disciplinada, o mercado poderá consolidar níveis de preço superiores aos registrados durante a fase mais pressionada do ano. Caso a demanda acelere nos segmentos consumidores, esse equilíbrio poderá ganhar ainda mais força.
Para o Brasil, o cenário coloca em evidência uma vantagem construída ao longo de décadas de investimentos em florestas, tecnologia e escala industrial. A competitividade do eucalipto brasileiro, combinada à presença consolidada dos produtores nos mercados internacionais, permite que o país participe de maneira relevante desse novo equilíbrio global. Ao mesmo tempo, a entrada de novos projetos e a evolução da indústria chinesa tornam cada vez mais importante acompanhar não apenas os preços, mas também os custos relativos e a dinâmica de cada região produtora.
O mercado, portanto, entra no último trimestre de 2026 com uma combinação diferente daquela observada no início do ano. Os estoques estão mais equilibrados, produtores voltaram a testar aumentos, algumas capacidades foram retiradas temporariamente e a demanda começa a apresentar sinais mais construtivos em segmentos importantes. Ainda há fatores a acompanhar, especialmente a entrada de novos volumes e o comportamento da demanda chinesa, mas os fundamentos recentes mostram um mercado em processo de reorganização.
A pergunta agora não é apenas se a celulose pode continuar avançando, mas qual será a velocidade dessa recuperação e quanto dela poderá se transformar em um movimento mais duradouro. A resposta estará nos próximos dados de estoques, compras, produção e consumo. Por enquanto, o conjunto de indicadores observados em setembro aponta para um mercado mais equilibrado e para uma indústria que entra no fim de 2026 com novas referências para definir os próximos passos.