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Portal Celulose - 23/04/2026

Inovação e diversificação impulsionam a competitividade global da indústria de celulose

Setor avança em tecnologias como aproveitamento da lignina, captura de carbono e novos produtos para reduzir dependência da commodity

Inovação e diversificação impulsionam a competitividade global da indústria de celulose

Em meio às discussões sobre preços, oferta e demanda, a indústria de celulose mantém em paralelo uma agenda estratégica voltada à ampliação de sua competitividade. O foco está tanto na criação de novas fontes de receita quanto na conversão da matéria-prima em produtos de maior valor agregado.

“Tradicionalmente, o aumento de valor vem do aumento da produção, que reduz o custo operacional por unidade”, afirma Sami Riekkola, vice-presidente executivo de celulose, energia e circularidade da Valmet, em entrevista.

Essa lógica se reflete nos investimentos recentes no Brasil, que se consolidou como principal polo global do setor, impulsionado pela disponibilidade de terras e alta produtividade florestal. Em 2024, a Suzano inaugurou o Projeto Cerrado, em Ribas do Rio Pardo (MS), com capacidade de 2,55 milhões de toneladas anuais, atualmente a maior do mundo para celulose branqueada de eucalipto. A liderança, no entanto, deve ser superada pela nova fábrica da chilena Arauco, em construção em Inocência (MS). Batizada de Sucuriú, a unidade terá capacidade de 3,5 milhões de toneladas por ano, com início de operações previsto para o segundo semestre de 2027.

Apesar do ganho de escala, o setor busca alternativas adicionais de geração de valor. “Mas esse valor também pode vir de um melhor aproveitamento da matéria-prima”, provoca Riekkola.

Entre as principais oportunidades está a lignina, subproduto gerado no processo de produção de celulose. Tradicionalmente utilizada para geração de bioenergia, a substância pode ganhar aplicações mais nobres. A Valmet desenvolveu o processo LignoBoost, que permite extrair e transformar a lignina em produto comercializável, com potencial uso em bioplásticos, asfalto, dispersantes industriais e materiais para baterias.

Um dos principais entraves históricos, o odor característico do processo, vem sendo enfrentado por meio de tecnologias de desodorização desenvolvidas em parceria com o instituto sueco RISE. Uma planta piloto já opera na Suécia, enquanto uma unidade pré-comercial está em funcionamento na Alemanha. Além de ampliar o portfólio, a extração da lignina libera capacidade nas caldeiras de recuperação, permitindo aumento de produção sem novos investimentos em equipamentos.

Outro eixo de inovação é a captura de CO₂. Segundo estudo do RISE, mais de 50% do carbono que entra na indústria florestal sueca é emitido como CO₂ sem se transformar em produto.

Por se tratar de carbono biogênico, capturado durante o crescimento das árvores, esse CO₂ pode seguir dois caminhos: o sequestro geológico, que gera créditos de carbono, ou sua utilização como insumo industrial, na produção de metanol e químicos.

No longo prazo, a expectativa é alcançar fábricas com emissões negativas. “Nos últimos 10 a 15 anos, o setor reduziu o consumo de água pela metade e substituiu energia fóssil por fontes renováveis. Com avanços em tecnologia, controle e eletrificação, teremos mais eficiência e melhor desempenho ambiental”, afirma Riekkola.

Nesse contexto, Valmet e Linde Engineering desenvolvem um projeto de pré-tratamento de gases, com capacidade de capturar até 2 milhões de toneladas de CO₂ por ano. A tecnologia já possui aplicações em escala industrial em setores como cimento e petroquímica.

Paralelamente, a empresa investe no BioTrac, um processo de pré-tratamento da biomassa que separa celulose, lignina e hemicelulose, permitindo múltiplas aplicações. O sistema pode utilizar diferentes matérias-primas, como resíduos agrícolas e industriais.

Entre os produtos possíveis estão etanol de segunda geração, pellets com 30% mais poder calorífico, biogás, biometano, combustível sustentável de aviação e químicos verdes.

Apesar do potencial, a escalabilidade dessas soluções ainda enfrenta desafios, como limitações tecnológicas e altos custos de investimento. A SCA, por exemplo, estuda há cinco anos a construção de uma fábrica de biocombustíveis, mas esbarra nesses entraves.

Além disso, a instabilidade regulatória é apontada como obstáculo. “As normas precisam ser mais firmes e estáveis. Precisamos saber quais serão as regras pelos próximos 10 ou 20 anos”, afirma Håkan Wänglund, diretor de tecnologia da SCA Östrand.

Enquanto novas tecnologias amadurecem, a diversificação de portfólio segue como estratégia consolidada. A conversão da celulose em produtos de maior valor agregado, como embalagens, papéis sanitários, fraldas e tecidos, reduz a exposição à volatilidade da commodity e melhora a rentabilidade.

A Klabin é um exemplo dessa abordagem, com atuação equilibrada entre celulose de mercado, papéis e embalagens. “O foco nesses produtos especiais continua sendo um posicionamento estratégico e diferenciado”, afirma Ricardo Cardoso, diretor industrial da empresa.

O movimento ganha relevância diante das mudanças no principal mercado global. A China, responsável por 43% da demanda mundial, vem ampliando sua produção interna, reduzindo o ritmo de importações.

Segundo a Hawkins Wright, a capacidade produtiva chinesa cresceu 10,5 milhões de toneladas nos últimos cinco anos. O ritmo de crescimento das importações caiu de 1,5 milhão por ano para cerca de 500 mil toneladas anuais.

“Tem uma transição acontecendo que precisa ser melhor entendida”, diz Cardoso. “Desde já precisamos nos adequar a essas mudanças futuras”, conclui.

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