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Após um ciclo de expansão da capacidade produtiva, o setor amplia o foco em modernização de máquinas, automação e manutenção, enquanto projeta a retomada dos grandes investimentos no fim da década
Após um período de expansão dos investimentos em fábricas e linhas de produção de papel e celulose na América Latina, os fabricantes de equipamentos vêm direcionando suas estratégias à modernização de instalações existentes, à automação industrial e aos serviços de manutenção. O movimento acompanha a desaceleração na contratação de grandes projetos e a crescente exigência por retorno financeiro por parte dos produtores.
No Brasil, os projetos do setor de árvores cultivadas previstos até 2028 somam R$ 105 bilhões em investimentos, segundo levantamento da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). Com parte relevante dessa expansão já concretizada ou em andamento, o foco da indústria passa a incluir o aumento da eficiência operacional e o melhor aproveitamento da capacidade produtiva instalada.
“No fim do dia, o que muda é a lógica econômica. A pergunta que os produtores, na verdade, fazem hoje deixa de ser quanta capacidade nova eu consigo colocar no mercado e passa a ser quanto valor eu consigo capturar daquilo que eu já investi e ainda estou pagando”, disse Rafael Barisauskas, economista para a América Latina na Fastmarkets.
No segmento de papel, os juros elevados e a desaceleração da demanda regional têm contribuído para direcionar recursos a reformas de equipamentos, automação e eliminação de gargalos produtivos. O cenário, entretanto, não significa necessariamente uma crise de mercado, segundo o economista.
“Mas é importante ressaltar que isso não é um mercado em crise”, disse Barisauskas. “Se eu fosse fazer uma leitura do balanço do mercado hoje, diria que o caminho é de equilíbrio para aperto, e não de excesso de oferta ou de folga”, acrescentou.
Na celulose, os investimentos de grande porte realizados nos últimos anos também reforçam a necessidade de disciplina financeira. Entre os exemplos estão o aporte de R$ 15 bilhões da Bracell na unidade Star, inaugurada em 2022 em Lençóis Paulista (SP), e o investimento de R$ 22 bilhões da Suzano na fábrica Cerrado, concluída em 2024 em Ribas do Rio Pardo (MS).
“Quando falamos de projetos de celulose, eles requerem muito mais alavancagem e custo de capital do que os projetos de papel”, afirmou Barisauskas.
Nesse contexto, fabricantes como a alemã Voith, a finlandesa Valmet e a austríaca Andritz ampliam o foco no atendimento à base instalada. As estratégias incluem serviços de pós-venda, fornecimento de peças, manutenção, digitalização e modernização de máquinas, enquanto as empresas acompanham as perspectivas de novos investimentos.
VALMET AMPLIA ATUAÇÃO NA BASE INSTALADAA avaliação mais criteriosa dos investimentos também tem prolongado o intervalo entre a decisão de investir e a contratação de equipamentos. Segundo André Luiz Kakehasi, diretor de vendas da linha de negócios de automação da Valmet na América do Sul, o processo de aprovação dos projetos está mais demorado.
“Antigamente, alguns investimentos que aconteciam de forma mais rápida, hoje estão levando um pouco mais de tempo”, disse.
Felippe Peçanha da Rosa, gerente de vendas sênior do setor de celulose para a América Latina da Valmet, relaciona o momento à dinâmica cíclica da indústria regional.
“Vimos, nos últimos 20 anos, ciclos de altas de até três anos seguidos por ciclos de baixas, um pouco mais curtos, de até dois anos e, às vezes, três. Na pandemia, permanecemos num ciclo de alta de investimentos durante período mais longo, muito por conta de empresas de celulose e papel terem sido enquadradas como de primeira necessidade. Demorou para entrar no ciclo de baixa, mas esse período chegou”, disse.
Apesar da desaceleração, a empresa continua participando de projetos de expansão na região. Um deles é a montagem eletromecânica da primeira fábrica de celulose da chilena Arauco no Brasil, em Inocência (MS). Com investimento previsto de US$ 4,6 bilhões, equivalente a aproximadamente R$ 23 bilhões ao câmbio considerado na estimativa original, o empreendimento deverá adicionar 3,5 milhões de toneladas anuais à capacidade de produção de celulose de eucalipto branqueada até 2028.
A entrada dessa nova capacidade também influencia as decisões de outros fabricantes de celulose, especialmente em um cenário de preços mais baixos para a commodity.
“Naturalmente, quando tem um investimento com esse tamanho, é normal que, no atual momento do mercado, com o preço da celulose em baixa e uma previsão de entrada de celulose nessa quantidade, isso também tenha um impacto na tomada de decisão dos outros fabricantes de celulose”, disse Rosa.
Enquanto novos projetos não ganham força, a Valmet amplia o atendimento às fábricas em operação. A atuação inclui contratos de manutenção preventiva e corretiva, fornecimento de peças sobressalentes, serviços voltados ao desempenho industrial, soluções de automação e equipamentos.
“Ao longo desses ciclos de baixa após grandes aportes, criamos uma base instalada muito forte. E essa base também nos gera um foco em servir esses clientes, quando não tem grandes investimentos acontecendo”, afirmou Kakehasi.
VOITH APOSTA EM DIGITALIZAÇÃO E EFICIÊNCIA OPERACIONALA Voith também direciona esforços à modernização de máquinas existentes e à otimização de diferentes etapas dos processos produtivos. Embora identifique oportunidades pontuais para ampliação da capacidade na América do Sul, a companhia considera o mercado de serviços uma frente importante para o período atual.
Antônio Lemos, presidente da Voith Paper para a América do Sul, citou uma entrega prevista para 2026 à Adami, fabricante catarinense de celulose, papel e produtos de papel, como exemplo de projeto em andamento.
Entre os clientes atendidos pela empresa que possuem capacidade produtiva instalada estão Klabin, Suzano, Smurfit Westrock e CMPC.
“Nosso momento, agora, é muito mais de olhar para o ‘aftermarket’, cuidando de serviços, das operações e dos ativos que os nossos clientes têm”, disse Lemos.
A digitalização é uma das principais frentes dessa estratégia. O uso de sensores permite acompanhar continuamente o funcionamento dos equipamentos e obter informações sobre as condições operacionais das máquinas, contribuindo para o monitoramento e a gestão dos ativos industriais.
“Estamos muito empenhados, agora, em estar conectados com as máquinas através de sensoriamento”, afirmou o executivo.
A Andritz também avalia o momento como uma acomodação após a expansão recente da indústria. Em nota, Rafael Sirtoli, vice-presidente sênior de papel e celulose da fabricante para a América Latina, destacou a importância dos projetos já contratados e do atendimento às unidades em operação.
“Hoje, estamos focados na carteira contratada, na evolução da base instalada e na preparação para os próximos grandes projetos”.
NOVOS PROJETOS PODEM GANHAR FORÇA NO FIM DA DÉCADAApesar da redução temporária no ritmo de grandes contratações, os fabricantes mantêm a expectativa de retomada dos investimentos em novas linhas de produção. A Valmet estima que a América Latina receba, em média, pelo menos uma nova linha de celulose a cada um ano e meio a dois anos.
“Sabemos que o ‘pipeline’ de investimento vai voltar a acontecer na América Latina, principalmente no Brasil”, disse Rosa.
A Voith projeta uma retomada mais expressiva entre 2029 e 2030 e afirma que empresas já avaliam novas oportunidades de expansão no Brasil e em outros mercados.
“Não posso comentar, mas tem gente estudando novas linhas no Brasil e também fora do Brasil”, disse Lemos.
Para o executivo, a recuperação do consumo de papéis para embalagem na região dependerá, entre outros fatores, da redução do endividamento das famílias e da retomada da demanda por produtos básicos. O consumo per capita de papel na América do Sul permanece abaixo dos níveis registrados em mercados desenvolvidos, o que, segundo ele, indica espaço para crescimento.
“O consumo de papel per capita na nossa região é de 60 quilos, na Europa, de 120, e nos Estados Unidos, 200. Temos na América do Sul quase 500 milhões de habitantes, com potencial adormecido para o consumo de papel. Acreditamos que, com a diminuição do endividamento das famílias, isso vai começar a aparecer”, disse Lemos.
A possibilidade de retomada dos grandes investimentos no fim da década também é considerada plausível por Barisauskas, embora dependa de condições macroeconômicas mais favoráveis. Entre os fatores que podem influenciar as decisões estão a redução dos juros globais, o alívio do endividamento e a recuperação do consumo.
Até que novas expansões se tornem economicamente viáveis, a modernização das instalações existentes e o aumento da produtividade devem permanecer entre as prioridades dos fabricantes de equipamentos e dos produtores de papel e celulose.
“Até lá, até que esses investimentos encontrem espaço no mercado para se maturar, o jogo é reforma, eficiência e execução dos projetos já estabelecidos e que estão sendo pagos”, concluiu o economista.