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Setor busca flexibilizar regras internacionais de certificação para viabilizar o cultivo comercial de árvores geneticamente modificadas e editadas, apontadas como alternativas para elevar a produtividade e aumentar a resistência a pragas e à seca
Após anos de menor exposição pública sobre o tema, a indústria brasileira de celulose voltou a discutir o uso comercial de eucalipto geneticamente modificado e editado. A retomada do debate ocorre em meio aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, à pressão sobre a produtividade florestal e à crescente concorrência por madeira industrial.
O setor busca avançar na aceitação dessas biotecnologias junto aos principais sistemas internacionais de certificação florestal, considerados hoje o principal entrave à adoção comercial das árvores modificadas. Embora não exista impedimento legal para o plantio no Brasil, organizações certificadoras como o Conselho de Manejo Florestal (FSC, na sigla em inglês) e o Programa para o Reconhecimento dos Esquemas de Certificação Florestal (PEFC) não concedem seus selos a operações que utilizam essas tecnologias.
A ausência dessas certificações pode comprometer o acesso a mercados relevantes e a grandes compradores globais, que exigem garantias de origem sustentável dos produtos florestais.
“A indústria poderia, eventualmente, plantar, mas a consequência é a perda da certificação. Ela reconhece o papel positivo dos sistemas de certificação e não quer enfrentá-los”, disse José Carlos da Fonseca Jr., diretor de relações internacionais da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá). A entidade, que reúne 48 empresas do setor de celulose, promoveu recentemente, em São Paulo, um encontro internacional com pesquisadores e representantes empresariais para discutir o tema.
PRESSÃO CLIMÁTICA E PRODUTIVIDADE IMPULSIONAM A DISCUSSÃOA competitividade da indústria brasileira de celulose foi construída, em grande parte, sobre ganhos de produtividade obtidos por meio de práticas de manejo florestal e programas de melhoramento genético convencional. Entre eles está a hibridização, processo que envolve o cruzamento de espécies para selecionar árvores com características superiores, posteriormente clonadas e cultivadas em escala industrial.
Essas técnicas contribuíram para posicionar o Brasil entre os líderes globais em produtividade florestal e custos de produção de celulose. Agora, porém, o setor busca acelerar os ganhos por meio de tecnologias capazes de desenvolver árvores mais produtivas, resistentes a pragas e tolerantes a condições climáticas adversas, como períodos prolongados de seca.
Embora tenham objetivos semelhantes, a transgenia e a edição genética são processos distintos. Na primeira, ocorre a introdução de material genético externo, que pode ser sintético ou proveniente de outra espécie. Já a edição gênica modifica diretamente o DNA da própria árvore, sem necessariamente incorporar genes externos.
“O melhoramento convencional começou a se mostrar limitado frente às incertezas do clima”, disse Camila Marangon, gerente de políticas florestais e sustentabilidade da Ibá. “Nenhuma planta é resistente a herbicida e à lagarta na natureza, então não adianta fazer só a hibridização, porque não vamos achar essa característica em nenhuma planta.”
A preocupação encontra respaldo em estudos sobre os efeitos do estresse climático nas florestas plantadas. Um levantamento publicado na revista Springer Nature estimou que, dependendo da região, até 89% dos plantios de eucalipto podem ser impactados em um cenário de aquecimento global de 4°C.
No Brasil, a produtividade das florestas de eucalipto recuou aproximadamente 11% entre 2021 e 2025, chegando a 34,5 metros cúbicos por hectare ao ano, segundo os dados apresentados pelo setor.
Além das questões climáticas, a indústria acompanha o aumento da demanda por madeira. O crescimento do consumo de biomassa acima da expansão da oferta amplia o risco de déficit do insumo, que pode se tornar cada vez mais disputado e caro. Nesse cenário, elevar a produtividade das florestas é também uma estratégia para preservar a competitividade da produção de celulose.
CERTIFICADORAS REVISAM REGRAS PARA BIOTECNOLOGIAA retomada das discussões ocorre em um momento de revisão das normas dos dois principais sistemas internacionais de certificação florestal: o FSC e o PEFC.
“O que justifica nosso interesse por retomar o assunto agora é o fato de que esses dois sistemas estão em processo de revisão das suas normas”, disse Fonseca Jr. Nesse contexto, a indústria busca abrir espaço para atualizar os critérios relacionados ao uso de biotecnologias no manejo florestal.
A possível flexibilização, entretanto, envolve preocupações ambientais. Entre os pontos levantados pelo PEFC estão o risco de fluxo gênico, os possíveis efeitos sobre a biodiversidade e os ecossistemas, consequências ecológicas não intencionais e a capacidade de monitorar impactos ao longo do ciclo de vida das florestas.
As preocupações também alcançam outros segmentos econômicos. A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel) alerta para possíveis impactos sobre a produção apícola, considerando que grande parte do mel exportado pelo país possui certificação orgânica. A entidade teme que abelhas que se alimentem de árvores geneticamente modificadas próximas aos apiários possam comprometer essa condição.
“A perda da qualidade de orgânico que pode ser causada pela expansão do eucalipto transgênico pode causar dificuldades de comercialização e impactos negativos sobre os preços e a renda dos apicultores”, disse Renato Azevedo, presidente da entidade.
Por outro lado, Francisco Aragão, pesquisador da Embrapa e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, afirma que eventos de eucalipto geneticamente modificado aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) atenderam aos requisitos de segurança estabelecidos.
“Cumpriram esses requisitos de mostrar que são seguros para o meio ambiente. Para a saúde humana em alguns casos, porque as abelhas podem fazer mel com eucalipto”, disse.
Segundo o pesquisador, o risco de fluxo gênico também seria menor no caso do eucalipto, uma vez que os plantios comerciais são realizados principalmente por meio de mudas clonadas de plantas-matrizes, e não pela comercialização de sementes.
“Os genes que normalmente se pensa em inserir no eucalipto não alteram significativamente a polinização e a produção de pólen. Vai acontecer da mesma forma que eucaliptos convencionais.”
O PEFC, por sua vez, afirma que a eventual revisão das regras depende da possibilidade de estabelecer mecanismos de controle confiáveis.
“A questão prática é saber se quaisquer salvaguardas propostas e mecanismos de controle da cadeia de suprimentos poderiam ser implementados, auditados e verificados de forma confiável”, informou, em nota. “A credibilidade do próprio PEFC também está em jogo.”
A organização afirmou ainda que uma recente missão de campo ao Brasil contribuiu para compreender as pressões enfrentadas pelo setor e reconheceu que as mudanças climáticas representam um desafio crescente para as florestas. Apesar da abertura ao diálogo, o PEFC ressaltou que a manutenção das restrições atuais continua sendo uma possibilidade. Procurado, o FSC preferiu não comentar o assunto.
SUZANO E ARAUCO INVESTEM EM PESQUISAS GENÉTICASPara a Ibá, a retomada do diálogo com as certificadoras já representa um avanço. Segundo Fonseca Jr., algumas empresas do setor estabeleceram parcerias com startups de biotecnologia voltadas especificamente à edição genética.
Entre as companhias que desenvolvem pesquisas nessa área estão a brasileira Suzano, maior produtora mundial de celulose de fibra curta, e a chilena Arauco.
“As mudanças climáticas já são uma realidade para nossa indústria e têm trazido impacto relevante nos hemisférios Norte e Sul. Todo dia aparece uma praga, uma doença diferente, que está relacionada a essas mudanças”, disse Carlos Aníbal Almeida, vice-presidente executivo da Suzano na Europa.
A Suzano adquiriu, em 2010, a empresa britânica FuturaGene, que passou a integrar sua estrutura de biotecnologia, com foco em pesquisas para aumentar a produtividade do eucalipto. A subsidiária mantém operações no Brasil e em Israel e, em 2024, obteve aprovação da CTNBio para o primeiro eucalipto transgênico do mundo com características de aumento de produtividade, tolerância a herbicidas e resistência.
“A biotecnologia, seja ela transgenia e ou ‘gene editing’ (edição genética), vai contribuir para que criemos florestas mais resilientes, mais preparadas para o que tende a ser um novo normal de padrão climático”, disse Aníbal. O executivo ressaltou, entretanto, que a companhia ainda não utiliza essas tecnologias em escala comercial. “Não temos nenhum plantio comercial. Todos são de caráter experimental”.
A Arauco também investe em pesquisas na área. Por meio da startup norte-americana Treeco, a companhia estuda mecanismos de edição genética com o sistema CRISPR, ferramenta que permite modificar regiões específicas do DNA, para aumentar a resistência dos eucaliptos a pragas e variações de temperatura.
“É um tipo de edição genética livre de DNA externo, muito precisa, que atua sobre genes específicos da própria espécie sem incorporar gene de fora”, disse Juan Andrés Anzieta, gerente de patrimônio e sustentabilidade da Arauco.
Questionado sobre a possibilidade de utilizar outras tecnologias, como a transgenia, o executivo afirmou que a empresa considera diferentes caminhos para ampliar a produtividade florestal. “Embora a Treeco trabalhe com Crispr livre de DNA externo, como empresa, estamos abertos a discutir todas as tecnologias e todas as formas pelas quais o aumento de produtividade seja possível”, disse Anzieta.
A Arauco adquiriu o controle da Treeco em 2023. Além das pesquisas relacionadas à resistência das árvores, a empresa investiga alterações no teor de lignina do eucalipto, componente que confere rigidez à madeira e precisa ser removido durante a fabricação da celulose. O objetivo é reduzir o consumo de energia e de produtos químicos no processo industrial.
“É muito importante podermos explicar, de maneira simples, o que é engenharia genética e que esse tipo de ferramenta já vem sendo usado há muito tempo em outros âmbitos da economia”, completou Anzieta.