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Pesquisa da CNI mostra que 78% das empresas do segmento adotam iniciativas de circularidade, com foco crescente em eficiência de recursos, redução de emissões e inovação
A indústria de celulose e papel está entre os segmentos industriais brasileiros com maior adesão a práticas de economia circular. Segundo a Sondagem Especial nº 102 – Economia Circular 2026, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 78% das empresas do setor adotam pelo menos uma prática de circularidade em seus processos produtivos.
O índice coloca celulose e papel na terceira posição entre os setores avaliados, atrás apenas de equipamentos de informática e eletrônicos, com 86%, e produtos de borracha, com 85%. Na sequência aparecem calçados, com 76%, e biocombustíveis, com 75%.
Realizada com mais de 1.600 empresas industriais de todo o país, a pesquisa aponta que 57% das indústrias brasileiras implementam ao menos uma prática de economia circular. O percentual chega a 66% entre as grandes empresas, 54% entre as médias e 43% entre as pequenas.
CIRCULARIDADE E REDUÇÃO DE EMISSÕESAlém da adoção das práticas, a indústria também associa a economia circular à agenda de descarbonização. Entre as empresas que já adotam iniciativas de circularidade, 57% acreditam que essas ações contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Em setores como biocombustíveis, produtos de borracha, bebidas e celulose e produtos de papel, mais de 70% das empresas reconhecem uma relação direta entre as práticas circulares e a redução das emissões.
O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, Davi Bomtempo, destaca a importância desse movimento para a indústria. “Quando quase 60% da indústria adota práticas circulares, vemos um compromisso claro do setor produtivo com a sustentabilidade. No entanto, o hiato entre grandes e pequenas empresas evidencia que precisamos de políticas públicas de apoio à transição tecnológica e capacitação das cadeias menores”, completa.
Para a analista de Políticas e Indústria da CNI, Larissa Malta, a economia circular passou a ocupar uma posição mais ampla na agenda climática brasileira, deixando de ser associada apenas à gestão de resíduos.
“Esses dados reforçam a percepção crescente da indústria sobre o papel estratégico da economia circular na agenda climática. Ao promover a eficiência de recursos e o uso de biomateriais, o país reduz a intensidade de emissões de gases de efeito estufa no setor. Compreender se a indústria percebe essa relação torna-se fundamental para avaliar o grau de internalização dessas práticas como estratégia de mitigação nas agendas empresariais”, completa Larissa Malta.
EFICIÊNCIA DE RECURSOS E INOVAÇÃOA pesquisa também mostra que a circularidade está relacionada a ganhos econômicos. Entre as empresas que adotam essas práticas, 40% apontam a redução de custos operacionais como o principal benefício esperado.
A melhoria da imagem corporativa aparece em seguida, citada por 31% das indústrias, enquanto 30% apontam o estímulo à inovação em produtos, processos e serviços.
No caso de cadeias industriais como a de celulose e papel, a discussão ganha relevância diante da necessidade de ampliar a eficiência no uso de matérias-primas, energia e outros recursos, além de desenvolver soluções capazes de aumentar o aproveitamento de materiais ao longo dos processos produtivos.
Davi Bomtempo ressalta que a evolução da economia circular depende diretamente do desenvolvimento tecnológico.
“Tecnologias mais avançadas permitem, por exemplo, desenvolver produtos mais duráveis, reparáveis e facilmente desmontáveis, além de melhorar processos de separação, reciclagem e reaproveitamento de materiais. Dessa forma, a inovação tecnológica não apenas viabiliza tecnicamente muitas soluções circulares, como também contribui para aumentar sua eficiência e reduzir custos, o que torna a economia circular mais competitiva e escalável no contexto industrial”, destaca.
Apesar dos ganhos já identificados, a mensuração dos resultados ainda é um desafio. Enquanto 40% das empresas que adotam práticas circulares já observam benefícios financeiros, 46% ainda não sabem medir o impacto direto desses investimentos sobre o faturamento.
“Os dados podem refletir tanto a dificuldade de mensuração desses benefícios quanto o fato de que muitos ganhos da economia circular se manifestam de forma indireta ou no médio e longo prazo, como maior eficiência no uso de recursos, redução de desperdícios, fortalecimento da imagem institucional e criação de novas oportunidades de mercado”, completa Bomtempo.
CUSTOS E TECNOLOGIA AINDA SÃO BARREIRASA sondagem também identificou os principais obstáculos para ampliar os investimentos em economia circular. No campo econômico, a ausência de demanda por produtos circulares e as elevadas taxas de juros aparecem empatadas como as principais barreiras, citadas por 25% das empresas.
Outro entrave é a falta de isonomia tributária entre materiais reciclados e virgens, apontada por 23% das indústrias.
Na dimensão tecnológica, a viabilidade econômica das soluções necessárias é o principal obstáculo para 30% das empresas. Entre as pequenas indústrias, a falta de mão de obra qualificada lidera os entraves internos, com 21%.
A percepção sobre a demanda também influencia o avanço da circularidade. Segundo a pesquisa, 37% dos industriais apontam a falta de conhecimento do consumidor final como um obstáculo, enquanto 21% mencionam a percepção negativa dos consumidores sobre produtos circulares.
“Ao conectarmos as barreiras da pesquisa, fica evidente que o custo do crédito é um dos principais problemas para a modernização. Sem linhas de financiamento acessíveis, é difícil para o setor produtivo assumir os custos iniciais de novas tecnologias de economia circular”, afirma Doudement.
Para a indústria, a expansão desse modelo depende de maior previsibilidade e de políticas públicas capazes de estimular investimentos. Entre as medidas consideradas prioritárias estão incentivos econômicos para a criação de infraestrutura de reciclagem e logística reversa, citados por 47% dos empresários, e para projetos de inovação em circularidade, mencionados por 46%.
No setor de celulose e papel, que já apresenta um dos maiores índices de adoção de práticas circulares entre as indústrias brasileiras, o avanço dessas iniciativas tende a estar cada vez mais associado à busca por eficiência operacional, inovação e redução da intensidade de emissões.